O aumento das dificuldades financeiras no campo ganhou força nos últimos anos e já se reflete diretamente no crédito rural. Levantamento da consultoria Agroicone, elaborado a partir de dados do Banco Central, mostra que o volume de operações rurais com mais de 90 dias de atraso aumentou cerca de dez vezes entre julho de 2023 e abril de 2026.

Nesse intervalo, o saldo dessas operações passou de R$ 3,8 bilhões para R$ 38,4 bilhões. O avanço evidencia uma deterioração da capacidade de pagamento de agricultores e pecuaristas e amplia a preocupação com o acesso ao financiamento para as próximas safras.

O problema, porém, não está restrito aos contratos que já chegaram à inadimplência. A análise considera um conjunto mais amplo de operações classificadas como problemáticas, incluindo financiamentos em atraso, prorrogados, renegociados ou inadimplentes.

Somados, esses contratos passaram de R$ 34,1 bilhões em julho de 2023 para R$ 188,8 bilhões em abril de 2026. O crescimento indica que parte dos produtores vem enfrentando dificuldades antes mesmo de chegar ao estágio mais grave de descumprimento.

Renegociações concentram grande parte dos problemas

Entre as modalidades analisadas, as operações em renegociação representam a maior parcela do crédito considerado problemático.

O saldo dessas operações ultrapassou R$ 100 bilhões, enquanto o número de contratos chegou a aproximadamente 410,4 mil. Na comparação com 2023, o crescimento foi de 630%.

As operações prorrogadas ou em atraso também aumentaram no período, embora em ritmo menor que os financiamentos classificados como inadimplentes ou renegociados.

Impacto varia conforme o tamanho do produtor

A deterioração do crédito não atinge agricultores e pecuaristas da mesma maneira.

Os grandes produtores concentram a maior parte dos valores inadimplentes. Em abril de 2026, eles respondiam por aproximadamente R$ 20,5 bilhões, ou 53,8% do saldo total, embora representassem apenas 8% dos contratos problemáticos.

Entre os pequenos produtores, ocorre o cenário inverso: eles concentram a maior quantidade de operações com problemas, mas representam uma parcela menor do valor financeiro. Eram 76,7% dos contratos inadimplentes e cerca de 11% do saldo.

Já os médios produtores apresentaram a maior taxa de inadimplência quando considerado o valor dos financiamentos, chegando a 6,1%.

Crédito problemático ganha proporção maior

Outro sinal de alerta está na quantidade de operações afetadas. Em julho de 2023, cerca de 464,5 mil contratos, equivalentes a aproximadamente 12% do total, apresentavam algum tipo de problema.

Em abril de 2026, o número chegou a 893,2 mil operações, quase 20% da carteira analisada.

A Agroicone aponta que o aumento dos valores ocorreu em ritmo mais acelerado que o crescimento da quantidade de contratos. Isso significa que o agravamento recente está relacionado principalmente à maior exposição financeira das operações que enfrentam dificuldades.

Cenário exige atenção para o crédito

A evolução dos indicadores preocupa porque a deterioração do crédito pode limitar a capacidade de novos financiamentos e aumentar a necessidade de renegociações.

Dados mais recentes do Banco Central reforçam esse cenário. Em agosto de 2026, a inadimplência entre produtores pessoas físicas chegou a 9,7% nas operações com recursos direcionados, ante 1% no mesmo mês de 2023. O índice também havia alcançado 8,8% em julho.

O quadro mostra que o problema do endividamento rural vai além dos contratos já considerados inadimplentes. Atrasos, prorrogações e renegociações também fazem parte de um processo de deterioração que pode afetar a saúde financeira das propriedades e o acesso ao crédito.

Fonte: Fonte: Globo Rural, com informações da Agroicone e Banco Central.