A agricultura familiar é a espinha dorsal do meio rural em Santa Catarina. Dos cerca de 183 mil estabelecimentos agropecuários, aproximadamente 78% são familiares. Esse segmento responde por perto de 50% do faturamento agropecuário estadual e emprega mais de 364 mil pessoas, sustentando a economia de centenas de municípios. Além do abastecimento interno, sua presença também alcança o mercado externo: o texto-base aponta participação relevante nas exportações de produtos agrícolas, inclusive itens de maior valor agregado, como alimentos artesanais e orgânicos certificados.
Apesar da força econômica e social, a viabilidade das pequenas propriedades é pressionada por fatores conhecidos — e persistentes: escala reduzida, custos de produção, dificuldade de acesso a mercados e necessidade de organização produtiva. A crise do leite simboliza esse cenário: em 2025, o preço médio ao produtor caiu para R$ 2,14/litro, abaixo do custo de produção, levando famílias a reduzir atividade ou abandonar o setor, especialmente no Oeste, onde a produção é concentrada.
O crédito rural segue como pilar de sustentação. O Pronaf amplia recursos (com R$ 10,5 bilhões previstos na safra 2025/2026), e programas estaduais complementam o fomento — como o Terra Boa, que projeta recursos para elevar produtividade e diversificar culturas. Ainda assim, parte dos produtores enfrenta barreiras práticas: burocracia, exigência de garantias e falta de assistência técnica contínua para transformar financiamento em resultado. Iniciativas de renegociação, como o Desenrola Rural, ajudam a reequilibrar o caixa de quem ficou para trás.
A infraestrutura rural pesa diretamente na renda: estradas vicinais, energia, conectividade e armazenagem. O déficit estadual de armazenagem afeta o pequeno produtor de forma desproporcional, que depende de silos comunitários ou soluções de menor escala para preservar qualidade e reduzir perdas. A expansão de internet e telefonia não é luxo: é condição para gestão, acesso a serviços, comercialização e integração a cadeias mais exigentes.
A sucessão familiar é outro ponto crítico. O êxodo de jovens se explica por renda limitada, carências de serviços públicos e conflitos geracionais. Pesquisas citadas indicam que propriedades com maior renda, diversificação, incentivo familiar, apoio de cooperativas e assistência técnica têm mais chance de manter sucessores. Somam-se desafios de gênero: mulheres avançam na atividade e em políticas específicas, mas ainda enfrentam desigualdade no acesso a recursos e representatividade.
Por fim, o clima reescreve o planejamento: mais secas, chuvas extremas e eventos severos elevam riscos para culturas sensíveis. A resposta passa por adaptação com manejo conservacionista, irrigação eficiente, armazenamento de água e tecnologias difundidas por pesquisa e extensão. Fortalecer a agricultura familiar, em síntese, exige combinar crédito descomplicado, assistência técnica, infraestrutura, inclusão geracional e mercados (circuitos curtos, compras públicas e diferenciação), garantindo permanência no campo com renda e perspectiva.