Edição impressa -Editorial: O agro que exporta, mas precisa incluir

Santa Catarina gosta de números — e com razão. Exporta bilhões, sustenta cadeias globais de proteína animal, transforma cidades do Oeste em centros industriais e faz do cooperativismo uma engrenagem que dá escala ao pequeno e eficiência ao grande. Nesta edição, os dados confirmam: o agro catarinense segue competitivo, o emprego no campo bate recordes no Brasil, feiras movimentam negócios e municípios descobrem no turismo rural uma renda que nasce da própria identidade. O retrato é forte. Mas seria desonesto enquadrá-lo apenas com lente de celebração.

O contraste aparece quando se olha para dentro. O mesmo agro que impressiona lá fora ainda convive, aqui dentro, com problemas que insistem em parecer “normais”: renda média do trabalhador abaixo da média nacional, gargalos de infraestrutura, déficit de armazenagem, acesso desigual a crédito e assistência técnica — e um tema que não aceita postergação: sucessão familiar. Não há exportação que se sustente se a nova geração enxerga o campo como herança pesada, e não como projeto possível. Modernização não é só máquina; é também internet, estrada vicinal, escola de qualidade, saúde por perto e perspectiva de futuro.

Há outro desafio menos visível e igualmente corrosivo: a desinformação. Quando fake news viram arma política ou comercial, o prejuízo não é abstrato. Afeta reputação, abre espaço para barreiras injustas e empurra decisões públicas para o terreno do ruído. Defender o agro não é blindá-lo de críticas — é exigir debate com evidência, ciência e transparência. Quem produz sob regras sanitárias e ambientais rigorosas tem o direito de não ser julgado por caricaturas.

E é justamente por isso que o destaque desta edição — as mulheres à frente — não é pauta “de março”, é pauta de futuro. Elas já comandam gestão, renda e inovação dentro da porteira, mas ainda enfrentam obstáculos concretos: menos acesso a crédito, menos reconhecimento, menos voz em espaços decisórios. Um agro que se diz moderno não pode aceitar essa defasagem como tradição.

Santa Catarina tem um agro maduro. O próximo passo é ser, além de eficiente, mais justo, mais conectado e mais verdadeiro — com políticas públicas que funcionem no chão da propriedade, não só no discurso. O campo segue em movimento; a pergunta é se o progresso vai chegar inteiro para todos.