A dificuldade para encontrar trabalhadores já faz parte da realidade de grande parte dos produtores rurais brasileiros e vem ganhando peso nas decisões dentro das propriedades. Um levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) mostra que a escassez de mão de obra é apontada como o principal desafio do setor por 44,5% dos entrevistados.
Os dados fazem parte do estudo “Mercado de Trabalho na Agropecuária: Evidências sobre Escassez de Mão de Obra e Produtividade”, apresentado nesta terça-feira (25), durante um evento realizado em São Paulo.
A dificuldade de contratação aparece de forma ainda mais ampla entre os participantes da pesquisa. Segundo o levantamento, 94,8% dos entrevistados afirmaram enfrentar problemas para encontrar trabalhadores para as atividades do campo.
A falta de profissionais disponíveis tem provocado impactos diretos na rotina das propriedades. Entre os entrevistados, 48,7% relataram atrasos em operações agrícolas, enquanto 48% disseram ter adiado ou até mesmo suspendido planos de expansão. O aumento dos custos também foi citado por 43,9% dos participantes.
Diante desse cenário, muitos produtores passaram a buscar alternativas para reduzir a dependência de mão de obra. Para 42,6% dos entrevistados, a resposta foi antecipar investimentos em mecanização e automação das atividades realizadas no campo. Outros 27,9% afirmaram ter migrado para operações menos dependentes de trabalhadores.
Perfil do trabalhador também está mudando
Além da dificuldade de contratação, o mercado de trabalho rural passa por uma transformação no perfil dos profissionais. O estudo da CNA aponta um avanço significativo na escolaridade dos trabalhadores do setor.
Em 2025, o número de trabalhadores rurais com ensino médio era 114% maior do que em 2012. Entre aqueles com formação superior, o crescimento foi ainda mais expressivo: 155% no mesmo período.
A mudança está relacionada, entre outros fatores, à busca por profissionais mais qualificados para lidar com novas tecnologias e equipamentos utilizados na produção agropecuária.
Outro movimento identificado é a saída de trabalhadores do campo para outros setores da economia, especialmente para atividades ligadas à prestação de serviços. A migração da população rural para os centros urbanos também contribui para reduzir a disponibilidade de trabalhadores nas propriedades.
Salários sobem para atrair profissionais
Com a escassez de mão de obra, o agronegócio também tem recorrido à valorização dos salários como estratégia para atrair e manter trabalhadores.
Entre 2022 e 2025, a remuneração média na agropecuária aumentou 35,2%, enquanto o crescimento registrado na economia brasileira como um todo foi de 24,8%.
Entre os trabalhadores com carteira assinada, o avanço dos salários do setor agropecuário ficou acima da média da economia em todas as regiões brasileiras.
No Centro-Oeste, a diferença foi ainda mais significativa. Entre 2007 e 2025, os salários da agropecuária cresceram 68%, enquanto a remuneração média da economia na região avançou 16%.
Os números mostram que, além de buscar novas formas de produção, o setor agropecuário vem elevando a remuneração e exigindo maior qualificação dos profissionais para enfrentar um mercado de trabalho cada vez mais disputado.
Para os produtores, porém, o desafio permanece: encontrar trabalhadores em quantidade e com a qualificação necessária para acompanhar o avanço tecnológico e manter a produtividade das propriedades.