Um retrato do campo liderado por elas

Em março, mês dedicado às mulheres, a AgroCom coloca em pauta o protagonismo feminino no agronegócio: liderança na gestão, inovação na produção, força na renda das famílias e transformação dentro e fora da porteira.

Mulheres deixam de ser apoio e assumem a liderança no campo: comandam a gestão e impulsionam renda e inovação. A trajetória de Bruna Gudiel, na bovinocultura leiteira familiar, retrata essa virada dentro da porteira.

O agronegócio brasileiro tem voz, tem competência, tem liderança — e cada vez mais, tem nome de MULHER. São 6,1 milhões de mulheres atuando no setor rural, número que não representa coadjuvantes, mas protagonistas.
Elas estão na gestão, na produção de alimentos, na geração de renda e na construção de um campo mais sustentável e inovador. Respondem por 42,4% da renda familiar no meio rural e, em muitas regiões, são a principal base econômica do lar.
No Nordeste, essa participação ultrapassa metade da renda das famílias. Na agricultura familiar — responsável por cerca de 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros — a presença feminina cresce ano após ano. Quase um quarto dos lares rurais já são chefiados por mulheres. Elas coordenam equipes, administram propriedades, lideram cooperativas e empreendem dentro e fora da porteira.
A imagem da mulher apenas como apoio ficou no passado. Hoje, elas tomam decisões estratégicas, investem em tecnologia, buscam capacitação e ampliam mercados. São produtoras, engenheiras agrônomas, médicas veterinárias, zootecnistas, gestoras, pesquisadoras e empreendedoras.
Transformam hortas em negócios, quintais em fonte de renda, pequenas criações em cadeias produtivas estruturadas. Mais do que produzir, multiplicam desenvolvimento.
Quando têm autonomia financeira, geram impacto direto na segurança alimentar e no crescimento das comunidades.


Apesar dos avanços, desafios ainda persistem. O acesso ao crédito, à assistência técnica e à tecnologia ainda não é igualitário. Mas o cenário está mudando. Políticas públicas, programas de incentivo e iniciativas cooperativistas vêm fortalecendo esse protagonismo. E, acima de tudo, há uma nova geração de mulheres decididas a ocupar definitivamente seu espaço no agro.
É nesse contexto de transformação que surge a história de Bruna Gudiel, jornalista por formação e produtora rural de São Miguel da Boa Vista. Filha de produtores de leite, cresceu acompanhando a rotina da ordenha e o cuidado com os animais.
Desde 1987, sua família constrói uma trajetória na bovinocultura leiteira, marcada por trabalho e dedicação. Na infância, ela e o irmão Deniz, já ajudavam os pais José Nilton e Rosalina nas atividades da fazenda. Mas o caminho profissional, inicialmente, seguiu outra direção.
Bruna formou-se em Jornalismo, trabalhou em jornais, sites e assessorias de imprensa, viveu em outras cidades e conheceu novas realidades. Ainda assim, o campo nunca deixou de ser parte da sua identidade.
Em 2019, retornou à cidade natal e, dois anos depois, decidiu reassumir seu lugar na Fazenda Gudiel, que fica localizada na Linha Traíras. Desde 2021, ela está à frente das atividades ao lado do irmão, Deniz, com o propósito claro de dar continuidade ao legado da família.
Hoje, a propriedade trabalha exclusi-vamente com mão de obra familiar e tem como principal atividade o gado leiteiro. São 54 vacas em lactação, duas ordenhas diárias e uma rotina que começa cedo e exige disciplina.
Bruna divide com a mãe as ordenhas, cuida das bezerras, realiza o trato, organiza a limpeza das estruturas e participa de todas as decisões da propriedade. Cada tarefa carrega responsabilidade, técnica e compromisso com a qualidade.
Mais do que executar funções, ela participa do planejamento do futuro da fazenda. Busca evolução constante, investimento e melhoria na produtividade.
Bruna representa uma geração que alia tradição e inovação. Que entende a importância da tecnologia, mas preserva os valores construídos ao longo de décadas.

O poder da sucessão familiar com protagonismo feminino

A história de Bruna é também a história de muitas mulheres que decidiram voltar às suas origens para fortalecer o negócio da família. É o retrato de um movimento silencioso, mas poderoso: o da sucessão familiar com protagonismo feminino.
No campo, sucessão não é apenas herança. É continuidade com visão de futuro.
É manter viva a história construída pelos pais, adaptando-a às novas exigências do mercado.
Quando mulheres assumem esse papel, o agro ganha sensibilidade na gestão, organização estratégica e olhar atento aos detalhes. Ganha também inovação, preparo técnico e capacidade de adaptação às transformações tecnológicas.
O futuro do agronegócio brasileiro passa, inevitavelmente, pelas mãos delas. Mulheres que acordam antes do sol nascer, enfrentam desafios diários e constroem, com trabalho e coragem, a próxima geração do campo. Histórias como a de Bruna Gudiel mostram que a sucessão familiar está mais viva do que nunca — e tem força feminina envolvida.