
No interior de Maravilha, na Linha São Paulo, a família Filimberti vive a rotina intensa e desafiadora da produção leiteira. Em um cenário em que milhares de pequenos e médios produtores de Santa Catarina avaliam abandonar a atividade, Loivo Filimberti e a família mantêm a lida diária com disciplina, investimento e fé no futuro — apesar das dificuldades impostas pela crise do setor.
A propriedade, reconhecida na região pela alta produtividade e pelo manejo diferenciado, possui 79 vacas em lactação, todas da raça holandesa, confinadas em um amplo galpão de 70m x 21m, climatizado com ar condicionado, camas individuais e ambiente controlado. O objetivo: garantir conforto, saúde e alta produção. E o resultado aparece: 44 litros de leite por vaca, em média, totalizando 3.200 litros por dia.
A ordenha é realizada três vezes ao dia — às 6h, 18h e 22h — por uma equipe de sete colaboradores, incluindo a própria família. O resfriador tem capacidade superior a 6 mil litros, garantindo a qualidade até a coleta. A estrutura conta ainda com salas de máquinas, sistema de ventilação, onde os animais permanecem sempre em boas condições térmicas.
Além do leite, a família cultiva milho e soja, produzindo internamente toda a alimentação do rebanho. “O custo só não é maior porque o que a vaca come a gente planta. Se fosse comprar tudo, impossível fechar as contas”, comenta Loivo.
Um produtor grande vivendo a mesma crise que atinge os pequenos
Mesmo com tecnologia, estrutura e produtividade acima da média regional, Loivo admite que jamais enfrentou um período tão desafiador. Ele resume a indignação em poucas palavras: “A vontade, às vezes, é parar de tirar leite”.
O motivo do desânimo é compartilhado por milhares de produtores catarinenses. O litro do leite, que há um ano superou R$ 3,20, hoje é pago a R$ 2,40 — valor insuficiente diante dos custos que permaneceram altos. “O leite caiu, mas os insumos não baixaram. A conta não fecha”, afirma.
Outro ponto que revolta os produtores é a importação do leite em pó, principalmente proveniente de Argentina e Uruguai. Para Loivo, é uma concorrência injusta e até ilegal:
“Eles produzem com metade do nosso custo. Lá não existe a carga ambiental, sanitária e trabalhista que nós temos. É impossível competir.”
O produtor lembra que países desenvolvidos protegem suas cadeias produtivas. “Quando o setor é ameaçado, o governo taxa a importação. Aqui, além de não taxar, incentivam”, critica.
Audiências públicas: esperança ou discurso vazio?
Santa Catarina tem sido palco de audiências públicas na Alesc e em Brasília sobre a crise do leite. Parlamentares como Altair Silva (PP estadual) e Daniela Reinehr (PL federal), têm articulado alternativas, como subsídios, taxação da importação e incentivo à industrialização local.
Loivo, porém, demonstra ceticismo moderado: “Se implantarem o que prometem, ajuda. Mas como vão fiscalizar? Vão colocar alguém dentro das indústrias? Precisamos de ação, não só discurso.”
Industrializar o leite: sonho distante
A proposta de industrialização local, citada nas audiências, também é vista com cautela. Loivo lembra que Maravilha já tentou iniciativas como empacotamento e produção de queijo.
“É investimento altíssimo. E hoje o consumidor quer leite de caixinha. Só grandes indústrias conseguem produzir. A embalagem chega a custar mais caro que o leite.”
Segundo o produtor, a concentração da produção nas cooperativas é o que mantém alguma estabilidade. Ele vende para a Auriverde, que industrializa junto à Aurora.
“A cooperativa segura mais o preço. A gente está menos pior que quem vende para indústria privada.”
O futuro: sucessão familiar e resistência
Em meio ao cenário crítico, há um ponto de esperança: a sucessão familiar. Gabriel, filho de Loivo, se capacitou na área e já conduz boa parte das atividades da propriedade.
Para muitos produtores, o fim da cadeia leiteira também significa o fim da vida no campo. Na família Filimberti, a permanência do jovem garante a continuidade da propriedade — mas dependerá de políticas públicas efetivas.
“Se tivesse incentivo do governo — seja no transporte, na industrialização ou no apoio direto ao produtor — ajudaria muito”, avalia Loivo.
Cooperação, por outro lado, é o que já fortalece o setor: as cooperativas, intercooperativas e sistemas integrados têm sido o suporte mais estável para propriedades como a dos Filimberti.
Uma atividade essencial que luta para sobreviver
Apesar da crise, Loivo lembra que o leite é um dos alimentos mais completos e acessíveis da mesa brasileira. Com estrutura moderna, dedicação e tradição familiar, a propriedade Filimberti segue produzindo. Mas, como tantas outras em Santa Catarina, permanece na corda bamba — produzindo muito, ganhando pouco e esperando que o poder público finalmente reconheça o valor da atividade.
O que diz o Governo Federal: promessas, grupos de trabalho e poucas respostas práticas
Em meio à pior crise da cadeia leiteira dos últimos anos, o Governo Federal anunciou, em outubro de 2025, a criação do Grupo de Trabalho da Cadeia Leiteira da Agricultura Familiar (GT-Leite), ligado ao Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). A iniciativa, instituída pela Portaria nº 55/2025, pretende elaborar diagnósticos e propor medidas emergenciais e estruturantes para garantir renda e permanência das famílias produtoras no campo.
O GT reúne representantes do MDA, Conab, Embrapa Leite, CNA, OCB, movimentos sociais, universidades, cooperativas e até membros do Núcleo Agrário da Câmara dos Deputados. Em tese, o objetivo é formular ações rápidas que envolvam crédito, industrialização local, fortalecimento das cooperativas e melhor comercialização do leite.
Apesar disso, para os produtores, a medida soa insuficiente diante da urgência:
O secretário do MDA, Vanderley Ziger, afirma que o governo quer ouvir quem está na ponta e transformar as demandas em políticas concretas. Porém, até agora, não houve anúncios de ações diretas, como subsídios, compras públicas ou medidas efetivas contra a concorrência do leite importado.
Movimento nacional em defesa do leite: câmaras municipais reagem e pressionam Brasília
Se no governo federal as decisões ainda caminham lentamente, nas cidades do Sul o movimento para proteger o produtor ganha força. Câmaras de Vereadores de Santa Catarina e Paraná estão aprovando Moções de Apoio ao PL 4309/2023, da deputada federal Daniela Reinehr (PL-SC), que proíbe a reconstituição de leite em pó importado para venda como leite fluido no país.
A prática, comum na indústria, permite que leite em pó, vindo principalmente de Argentina e Uruguai — com custo de produção até 50% menor — seja transformado novamente em leite líquido e disputem espaço nas gôndolas com o leite produzido no Brasil.
Para os produtores, é a mais clara forma de concorrência desleal.
“Como competir com um leite que chega quase pronto, barato e sem exigências sanitárias e trabalhistas como as nossas?”, questiona a deputada.
Lideranças municipais de Chapecó, Concórdia, Ermo, Abelardo Luz e Cascavel (PR) já manifestaram apoio à proposta. A Acamosc articula o movimento em mais 30 municípios.
Segundo Daniela Reinehr, cada moção representa “a voz do interior gritando por respeito”. O projeto já passou por comissões importantes em Brasília e aguarda análise final na CCJ.
Alesc debate a crise e pressiona por medidas emergenciais em Santa Catarina
Em Santa Catarina, onde mais de 30 mil famílias vivem do leite, a crise foi tema de uma audiência pública lotada na Assembleia Legislativa (Alesc). Deputados, cooperativas e produtores se reuniram para apresentar caminhos de contenção imediata e de médio prazo.
Com o preço pago ao produtor chegando a menos de R$ 1,80 por litro em muitos municípios — bem abaixo dos custos — o clima no auditório era de indignação e urgência. Muitos agricultores exibiam adesivos “Luto pelo Leite”.
A Epagri/Cepa registrou queda superior a 10% na produção, reflexo do abandono da atividade.
Entre as medidas discutidas:
Controle rígido das importações de leite em pó.
Apoio financeiro temporário para pequenos e médios produtores.
Incentivo à industrialização regional, para agregar valor ao leite catarinense.
Aprovação do PL 768/2025, que proíbe a reidratação de leite em pó em Santa Catarina.
O deputado Altair Silva (PP) foi direto: “O produtor está no limite. Se nada for feito, vamos perder uma das cadeias mais importantes do campo catarinense.”
A fala ecoa a realidade vivida na propriedade da família Filimberti. Mesmo com tecnologia e alta produtividade, a conta não fecha. Para quem produz 3.200 litros por dia, a diferença de centavos no litro representa perdas enormes ao final do mês.
O Sindileite reforçou que tanto produtores quanto indústrias estão com prejuízo — e pediu fiscalização sanitária rigorosa das importações, compras públicas de leite e suspensão temporária da entrada de leite em pó do Mercosul.
Ao final, formou-se uma comissão que irá trabalhar junto aos governos estadual e federal para acelerar medidas emergenciais.
A realidade da região refletida no Brasil inteiro
Enquanto Brasília discute e câmaras municipais pressionam, o que se vê no campo é uma corrida contra o tempo — e contra os números. Em propriedades modernas como a dos Filimberti, já há desânimo. Nas pequenas, o abandono é crescente.
Loivo resume o drama em poucas palavras: “O produtor não quer luxo. Só quer dignidade e pagar as contas.”
É exatamente isso que a cadeia leiteira catarinense pede: dignidade, regras claras e proteção mínima para continuar produzindo o alimento que chega diariamente à mesa dos brasileiros.